Kiff

Uma peça teatral onde tudo é dor

originalmente escrito na madrugada insone e barulhenta de 09, fev de 2026

Todos os dias eu acordo e nada é definido, se é ruim ou menos ruim, se é suficientemente bom ou minimamente estável. Nada.

Sigo olhando em volta e achando que todo mundo finge tranquilidade e serenidade muito bem e eu sou a péssima atriz no tablado. A sensação é essa: a de uma grande atuação. Como todo mundo aprendeu a estar acostumado tão rápido?

Hoje chegaram dois pacientes na na pior ala do hospital - chamado carinhosamente assim pelas enfermeiras-, e os acompanhantes se entreolharam cansados e sussurraram: hoje vai ser uma noite difícil. A anterior não tinha sido melhor, ainda que situações gerais tenham rendido risos (não meus, pois péssima atriz que sou e abalada pós colapso emocional, não conseguia esboçar o mínimo sorriso que fosse). Rir de pessoas perturbadas por distúrbios mentais me parecia fora de tom demais vendo a minha própria situação. Fiquei sem conseguir respirar, o corpo tremia como hipotermia, fui levada para o corredor pra me recuperar. E eu nem era paciente da sala de observação neuro, eu só era acompanhante de um paciente desorientado e delirante que segurou meu pulso com força e me olhou com um ódio que nunca tinha visto dele. Tive um dejàvu de 2 anos atrás quando, pós AVC, minha vó me direcionou a mesma raiva contida no olhar e o mesmo descontrole.

Enfim.

Um dos pacientes que chegou foi um rapaz que precisou ser totalmente amarrado à cama. Totalmente. Várias ataduras nos pulsos, nos tornozelos, joelhos e cotovelos. Ele se debatia numa violência que afastava a maca do lugar. Os olhares em volta eram de absoluto terror e cansaço. De um jeito circense, outros pacientes e acompanhantes o olhavam como a um monstro.

A outra paciente já chegou gritando e gritando e gritando. Enfermeiras tentavam descobrir onde doía, mas pelo visto, tudo doía. A dor parecia vir de dentro e saiam pela boca estremecendo todo o lugar. Ela gritou por mais de 24h ininterruptas. Contadinhas de relógio.

O cenário era o que outrora deveria ter sido uma enfermaria pacífica, na medida do possível, pois ainda sendo uma sala de observação neurológica, concentrava as pessoas recém perturbadas por acidentes mentais diversos e estavam ali em triagem para que pudessem evoluir para enfermarias específicas. Agora, além dos 10 leitos fixos, mais 10 macas foram enfiadas em duplas no meio da ala e cadeiras plásticas de acompanhantes ficavam no meio dos micro corredores formados. Ninguém parava sentado por muito tempo. Nenhum acompanhante ali tinha mais que 2h dormidas.

E a peça se desenvolvia assim: enfermeiras correndo e empurrando quem tivesse no meio pra atender demandas urgentes - e todas as demandas eram urgentes: engasgo, fraldas cheias, medicações, dores, alimentação, sondas, banhos, curativos, mais fraldas, mais medicações, mais sondas, mais banhos. Às vezes no bom humor, trocando gracinhas entre si, outras no puro estresse, o que o contexto permitia. Os dois personagens recém chegados performavam dor e insanidade, insanidade e dor. Ela gritava, ele se agitava em resposta. E os espectadores-acompanhantes viraram as cadeiras e assistiam ao espetáculo em total torpor de horror. E se levantam cronometrados a enfermeiras que passavam correndo e empurrando para atender a demandas urgentes...

O pior dessa peça, é que o fim só acontece pra quem sai, mas ela continua, com novos atores e novos espectadores por tempos e tempos e tempos...

Me surpreende que mais ninguém ali tenha se juntando a mim no colapso.