sobre leituras e a vida
Originalmente escrito na madrugada insone e barulhenta de 08, fev de 2026
Num carnaval passado, primeiro ano de pandemia onde tudo era só esquisito, estava lendo "As águas-vivas não sabem de si" (Aline Valek) enquanto esperava meu pai ser atendido nos primeiros curativos diabéticos dele e um trecho do livro, sobre as águas-vivas se moverem como um corpo só e conta a história de uma delas, errante, que se separa do seu "corpo" comum e passa a ter vislumbres de independência e autonomia antes de morrer, me pegou bastante:
"Agora havia ela e o mundo, a separação entre duas coisas que talvez sempre tivessem sido distintas. Como não havia reparado naquilo antes? Fazer parte de uma coisa só a havia insensibilizado para a possibilidade de que fosse una, completa por si só, e que cada ser que flutuava ao seu redor também fosse protagonista da própria história - e veio a sensação de ter uma história só dela, uma emoção inédita e um tanto incompreensível para uma água-viva. (...) Descobriu com alguma infelicidade que ser um indivíduo era também ser pequeno e sentir medo o tempo inteiro. (...)
Um observador que visse aquela água-viva aos farrapos rolando pelas ondas já consideraria grandioso ela ter chegado até ali sem ter chamado a atenção de nenhum peixe (...) mas não julgaria que ela estava disposta a viver como nunca antes. Tinha-se percebido livre, tomada pela recém-adquirida consciência de si mesma, e que arrebatadora era essa sensação, mas também sentia a necessidade de descobrir mais, de sentir o mundo mais tempo por aquela perspectiva. De repente muito mais corajosa, ela moveu seus cílios o melhor que conseguiu para se manter longe de um paredão de corais que bem poderia colocar fim em sua viagem. Escolheu não parar ali. Queria ir além.
Mas, não, quem decidia era a água (...)"
Já sentia naquela altura que aquela prisão onde me encontrava, com meu pai começando a Odisseia de feridas diabéticas, tinha similaridades com a falta de autonomia da água-viva. Era de sua natureza. Parece ser da minha natureza.
Agora em 2026, novamente em prévias de carnaval, tava lendo A empregada (da Freida McFaden) e a parte que bateu na sensibilidade foi a violência psicológica que acontece com as personagens principais que são obrigadas a ficarem presas em um quarto e, na promessa de sair, escutam repetidamente a frase "você vai sair... mas não agora" e sinto a vida me colocando nesse mesmíssimo lugar aprisionado. Quando tudo parece que tem um jeito, uma brecha, um vislumbre de regularidade, volto ao quarto, peço misericordiamente para sair e a vida responde: "você vai sair... mas não agora".
No primeiro ainda consegui traçar um paralelo bonito. É um livro que sinto ter me marcado para toda vida. O A empregada não, achei ruim, clichê, fraco e me entristece que esse é o paralelo literário que consigo fazer no momento.