Kiff

Enquanto o vento não vem

Na correria de vida eu fui capturada pela existência de uma aranha. Eu particularmente gosto das aranhas de jardim. Acho o 'X' do formato delas bem característico e, sabendo que inofensivas, sempre considero um convite para me aproximar e vê-las de perto.

Há uns meses, uma aranha habitou a minha estante de livros. Resolvi tirá-la com um galho quando me deparei com um estabilamento e o confundi com ninho de crias e imaginei que minha estante seria tomada por filhotinhos. A coloquei fora pra seguir sua natureza. Mas pelos dias que ela ficou ali, me fazia companhia. Ela tecia a teia dela, eu crochetava os meus fios.

Alguns meses depois, encontrei outra alojada no centro de uma imensa teia no jardim de casa e suspirei: ali, sim, era o lugar dela.

Todos os dias antes de sair de casa pro trabalho, eu dava uma passada pra olhá-la, perceber detalhes, aprender uma coisa nova.

E descobri que ela se chama Argiope argentata, ou aranha-de-prata; Que é comum e inofensiva aos humanos. Que ajuda no controle de pragas e mosquitos. Que é uma excelente artesã e constrói teias de padrão único. Que os estabilamentos — as “estrelinhas” que eu havia visto antes —, apesar de não terem uma confirmação científica definitiva, são tidos como enfeites da teia. É a aranha romantizando o próprio espaço.

E percebi filhotes. E li sobre como eles são levados pelo vento. E percebi o minúsculo macho. E li que ele costuma ser devorado pela fêmea. E a vi diferente no passar dos dias. E descobri que ela estava nos seus últimos dias de vida porque cumpriu com o seu propósito de procriação. E senti uma tristeza funda.

Sabendo que seus dias eram poucos, passei a observá-la com ainda mais atenção. Li que, no início do fim, ela não fica para ver seus filhos crescerem. Eles partem levados pelo vento, num fenômeno chamado ballooning. Que, nas semanas seguintes, seu corpo perde o viço, fica opaco e ressecado. Que a teia começa a apresentar falhas que ela já não refaz diariamente. Que as pernas se tornam menos firmes. E que, em algum dos próximos dias, ela partirá — talvez presa ao centro da teia onde passou toda a vida, ou de qualquer outra forma irrelevante.

Mas esse não é diretamente um texto sobre aranha, pra usar aquela frase odiosa e clichê da internet.

Um dia, ela também foi um dos filhotes que flutuaram no ballooning e chegou até aqui, onde construiu sua casa, suas crias e o seu fim. A tristeza nasce do paralelo que faço com a minha própria vida: perdi a oportunidade do meu ballooning e construí uma teia que ainda me prende ao centro. Na última vez em que a observei, ao notar partes de seu corpo ressecadas, senti a secura do meu próprio corpo.

Sinto luto pelas minhas partes mortas, pelas minhas partes não vividas.

Ainda que o mamífero se diferencie do aracnídeo em ciclos teoricamente distintos, na prática eu não fui a aranha que nasceu, procriou e morreu como lhe era fadado, mas a aranha que não foi levada pelo vento porque precisou ficar. Porque alguém precisava ficar — e calhou de ser eu, a aranha artesã da vez.

Minhas partes ressecadas não são da velhice. Eu que no alto dos meus 36 deveria estar vivendo o melhor da vida, como acreditava, estou na velhice herdada. A que me foi dada pelo meu destino, pela minha classe social, pelo meu gênero, tal qual a aranha que não fugiu de sua natureza de morrer após procriar.

Sigo aqui tecendo diariamente estruturas que não foram criadas por mim, mas impostas a mim. E sigo nessa manutenção diária de vida porque, afinal, o que me resta senão continuar tecendo?

A tristeza dói com mais força nos dias em que, tal como a frágil e invisível teia, ninguém celebra quem fica. Ninguém recompensa o cuidado prolongado. Não há beleza reconhecida no rito do sustento diário das estruturas da teia.

Me resta esperar que, diferente da aranha que segue em ciclo fechado, eu ainda possa ter o meu balooning tardio. Porque, afinal, o texto não era sobre a aranha, mas sobre a observadora.

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